SINNERS / PECADORES:
A VAMPIRIZAÇÃO DO BLUES E DA ARTE NEGRA NA AMÉRICA
SINNERS / PECADORES: A VAMPIRIZAÇÃO DO BLUES E DA ARTE NEGRA NA AMÉRICA
Uma dica: ouça a trilha do filme enquanto confere o texto.
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Alguns filmes são meramente blockbusters. Outros filmes são 100% arte. Uns poucos, mas bem poucos mesmo, conseguem transitar em alguma via oculta que permite uma película ser ambos. Então, este é um filme que entre o deleite de uma fotografia extasiante, uma trilha sonora matadora e diálogos inspirados, você ainda vai se deparar com o principal: uma BAITA história.
É o caso de SINNERS / PECADORES, que está saindo do cinema para o streaming.
Na encruzilhada entre mito e realidade, a música sempre foi uma dádiva ambígua: ora bênção divina, ora maldição que condena o artista a uma eternidade de tormentos. Na Grécia antiga, Orfeu usou a lira para encantar deuses e monstros, mas também para desafiar a morte — e foi punido por isso. Desde então, os músicos têm sido vistos como portadores de um dom perigoso, capaz de curar e destruir ao mesmo tempo.
A sinopse sem spoilers: dois irmãos gêmeos vão a Chicago em busca de oportunidades, mas logo descobrem que o norte é o Mississipi com prédios. E a “oportunidade” que se apresenta é roubar um gangster famoso. Decepcionados e com medo de retaliações, voltam ao sul.
Falarei de cenas mas não trarei spoilers, ok, pessoal?
Michael B. Jordan que interpreta os gêmeos Fumaça & Fuligem.
Em SINNERS / PECADORES, Ryan Coogler transforma o mito norte-americano do bluesman Robert Johnson — o homem que teria vendido sua alma ao diabo na encruzilhada em troca de talento — em uma poderosa alegoria sobre a vampirização da arte negra nos Estados Unidos. Mas não se trata apenas de recontar uma lenda: trata-se de inverter a lógica do pacto. Aqui, não é o músico que vai atrás do diabo. É o vampiro que caça o talento negro, pronto para sugar-lhe a seiva vital, reproduzi-lo na boca de artistas brancos e transformá-lo em espetáculo para o consumo de massas.
Um Retrato Nu e Cru dos EUA da Década de 1930
O filme se passa na década de 1930, período em que o apartheid racial nos Estados Unidos não era apenas uma realidade do sul e segregacionista, mas um fenômeno nacional. Como denuncia a historiadora Jill Lepore, o racismo não conhecia fronteiras: um negro seria um negro em qualquer canto dos EUA. Esse apartheid institucionalizado só começaria a ruir formalmente nos anos 1960, com as batalhas pelos direitos civis.
É também no período dos anos 1930 que o filme se passa que o governo nazista envia uma comissão de juristas para conhecer e estudar o sul dos EUA e compreender o seu arcabouço legal e institucional. Motivo: Hitler desejava “imitar” os estadunidenses.
E imitou: é na mesma época em que se passa o filme que a Alemanha aprova as Leis de Nuremberg (não confundir com o julgamento, este mais de uma decada posterior), o conjunto normativo que positivaria a discriminação racial, étnica, religiosa e sexual como política de Estado.
Mas a coisa não é tão simples.
A comissão de juristas relata ao Führer que não seria possível copiar pura e simplesmente as leis segregacionistas dos EUA, porque segundo os estudiosos nazistas o país americano havia adotado normas tão radicais que eram quase inexequíveis em território europeu. Esse é o cenário caseiro e mundial onde o filme vai tecer a sua jornada.
Coogler retrata com precisão esse ambiente hostil, não só para os negros, mas para qualquer estadunidense que não fosse branco e protestante. Um exemplo notável é a família chinesa que administra lojas em lados opostos da rua: uma voltada para clientes negros, outra para brancos. Com o notório pragmatismo chinês, eles conseguem transitar economicamente entre os dois mundos, mas jamais são aceitos como iguais pelos brancos nas relações pessoais. Um lembrete de que o racismo estrutural nos EUA foi — e ainda é — uma cerca alta demais para ser transposta apenas pelo comércio.
A Falácia da Integração no Norte
A fala de um dos gêmeos protagonistas é emblemática: quando perguntado por que deixaram Chicago para voltar ao Mississippi, ele responde, em tradução livre, que o norte é para os negros apenas um grande campo de algodão na forma de prédios. O recado é claro: não havia refúgio para a cor da pele. O preconceito corria solto, de norte a sul, demolindo qualquer ilusão de liberdade para os afro-americanos.
Entre Patuás e Dinheiro: O Poder Real
Em outro ponto alto do roteiro, o protagonista discute com a esposa sobre a ineficiência de seus patuás e rezas ancestrais, heranças da espiritualidade africana. Ele confessa ter viajado pelo mundo, lutado na Primeira Guerra Mundial e, ao final, descoberto a dura realidade: apenas o dinheiro confere poder. E sem poder, não há liberdade — uma lição amarga que transcende o tempo e ainda ecoa nos corredores da história.
Aliás, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) deixou marcas indeléveis na alma dos soldados negros americanos, que, mesmo arriscando a vida pelo país, eram tratados como cidadãos de quinta categoria. No filme, sente-se o peso desse desencaixe identitário: lutar pelo país que te nega humanidade.
Vampiros, Supremacia e Indústria Cultural
No filme de Coogler, os vampiros aparecem como supostos admiradores da arte negra, oferecendo ajuda para que o músico atinja o mercado e o público. Mas, em troca, exigem o pagamento mais alto: sua alma artística. Essa trama ecoa o que a indústria musical realmente fez (e faz) com a música negra: vampiriza o talento, apaga a história dos criadores e substitui-os por ídolos brancos mais palatáveis ao grande público.
O blues, jazz, rock e hip-hop nasceram de corpos negros, mas muitas vezes chegaram ao topo das paradas na voz e no rosto de brancos. Sister Rosetta Tharpe, a “madrinha do rock”, foi eclipsada por Elvis Presley, que virou “rei” — embora fosse apenas mais um filho dos reis negros Little Richard e Chuck Berry. Essa apropriação cultural não é apenas roubo: é um apagamento histórico.
No filme, a figura do vampiro é ainda mais inquietante. Um irlandês pobre que, à primeira vista, compartilha a dor dos marginalizados — mas que, no desenrolar da trama, revela suas ligações com o supremacismo branco e a própria Ku Klux Klan na figura do casal que “coletará” para si. O monstro, afinal, veste muitas máscaras.
A Origem dos Vampiros e a Metáfora da Exploração
A lenda dos vampiros é tão antiga quanto o medo da morte. Nas noites sombrias da Europa medieval, cadáveres inquietos — os revenants — aterrorizavam as aldeias. Com o tempo, o cristianismo transformou esses mitos em demônios sedentos de sangue, símbolos do mal que a cruz poderia repelir. Na literatura, o vampiro virou aristocrata: fascinante e letal. Mas sua essência permanece a mesma: um predador que se alimenta da vitalidade alheia para garantir sua própria eternidade.
Em SINNERS / PECADORES, o vampiro é mais que uma criatura sobrenatural: é uma alegoria da indústria cultural branca que, por séculos, sugou a arte negra, transformando-a em produto — e, depois, descartando-a. Tal qual um vampiro, esse sistema se reinventa em cada geração, assumindo novas formas para perpetuar a exploração.
Reflexões e Encruzilhadas
O filme de Coogler provoca múltiplas leituras: seria uma denúncia da apropriação cultural, uma fábula moral sobre o pacto com o sucesso, ou apenas entretenimento bem construído? E quanto a nós, espectadores — seremos cúmplices desse pacto ou críticos atentos à vampirização que se repete?
Em uma cena quase simbólica, caçadores de vampiros indígenas aparecem para alertar uma família prestes a ser atacada. Um lembrete incômodo de que também eles — e, por extensão, seus povos — foram vampirizados ao longo dos séculos. Suas terras, culturas, corpos e saberes foram sistematicamente explorados e descartados, primeiro pelas políticas coloniais e depois pelo capitalismo voraz. O genocídio indígena não foi apenas físico, mas também cultural: uma expropriação violenta de identidades, crenças e valores.
Esse vampirismo cultural, aliás, não se restringe ao território americano. Desde o início das grandes navegações, o imperialismo europeu espalhou seus tentáculos pelo mundo, extraindo riquezas materiais e simbólicas de povos colonizados. Artefatos arqueológicos, religiosos e artísticos foram arrancados de seus contextos originais e entronizados em museus como o British Museum, transformados em troféus de uma história escrita pelos vencedores. Hoje, ex-colônias ainda exigem a devolução dessas peças, denunciando que não se trata de metáfora: a vampirização cultural é concreta, palpável e institucionalizada.
Em SINNERS / PECADORES, a aparição dos caçadores indígenas de vampiros expõe uma ferida aberta. Mesmo quando em posição de ajudar, esses povos foram — e continuam sendo — ignorados. Um lembrete incômodo de que o monstro da exploração cultural assume muitas formas, mas sempre se alimenta do mesmo sangue: o das vozes silenciadas e dos saberes subtraídos.
O blues nasceu na encruzilhada entre dor e resistência. Mas quem realmente lucra com esse pacto? A indústria que oferece fama em troca de tudo ou a sociedade que consome e descarta sem olhar para trás? E se, na encruzilhada, o verdadeiro diabo for o sistema que nos suga? Como não se emocionar com a frase do gaitista (emulando Sony Boy Williamson): “os brancos até gostam de blues. Ouvem, se emocionam, tentam encontrar o ritmo. Só não gostam de quem fez o blues”?
Por que assistir e o que esperar?
No fim, SINNERS / PECADORES não é um filme sobre vampiros: não ao menos, sobre os vampiros mitológicos.
É antes de tudo um retrato com uma realidade desesperadora em suas lentes da exasperante encruzilhada em que a arte negra — e de outras minorias — ainda se encontra. Bebendo no realismo mágico que surge na literatura sul americana e se espraia como um grito pela arte afroamericana, o terror presente no filme é em rigor uma metáfora que até suaviza a realidade, muito mais vampiresca e sangrenta que a do filme. E o elemento sobrenatural tem a força de um grito. Um grito que ecoa dos campos de algodão até os palcos de festivais milionários. Um lembrete de que, na cultura americana, como continuação da cultura imperialista britânica, o pacto não é apenas uma escolha pessoal — é uma imposição histórica.






Conheço a história do Robert Johnson e amo o Michael B. Jordan desde que ele roubou a cena em Pantera Negra. Mas me disseram que é um filme de terror e não gosto de terror. O que me diz?