GOLFADAS AÉREAS
O intransigente poder do vômito.
Eu tenho o melhor primo do mundo!
Eu me recordo muito bem!
Decidimos viajar juntos... 15 anos atrás.
Fomos para Lima, Cuzco, Machu Picchu, Parajas e pensamos: por que não esticar até Nazca?
O segundo pensamento foi: se queremos ver as linhas de Nazca, por que não fazer isso do alto de um pequeno avião?
O terceiro pensamento foi o mais racional: levamos um susto ao nos deparar com O Calhambeque alado que nos levaria até as linhas de Nazca.
O piloto explicou que ele adernaria o avião para um lado e para o outro para que os passageiros pudessem contemplar as linhas lá no solo acinzentado do deserto.
Um deserto diferente... Mais forrado de pedras e rochas do que de areia.
Pensamos: o que poderia dar errado?
Tirando o avião cair e todo mundo morrer... Praticamente tudo.
:-)
Eu me recordo de muita coisa mas quase nada das linhas rs
Naquele avião pequeno... Barulhento e instável... Cada inclinação para um lado e para o outro torcia o estômago dos passageiros. Éramos 10. Gradualmente eu fui vendo o rosto de todos empalidecer.
Depois de perder o tom corado de pele... Passageiros começaram a ficar verde amarelados ou amarelo esverdeados de quem está ficando enjoado. Nós nos olhávamos e sem precisar trocar palavras dizíamos um ao outro que ambos estavam ficando enjoados também.
Foi quando o passageiro de trás de você... E logo do meu lado... Com agilidade conseguiu se agarrar ao saco de vômito e despejou suco gástrico no saquinho. Em um golpe de ninja você jogou o pescoço para frente ao ouvir a jatada vomitativa com medo de ser atingido pela golfada. Não foi. O senhor de origem asiática que se desfazia em vômito tinha boa Mira.
Mas em dado momento... Ele basicamente desmaiou e o saco de vômito caiu de sua mão.
A partir daí não foi mais você que teve que se preocupar com os dejetos vomitativos... E sim eu que estava do lado dele.... Porque você se recorda que o passeio aéreo envolvia adernar aeronave. Assim, na primeira adernada à esquerda, o saco de vômito que estava em pé tombou... Vômito escorreu pelo piso da aeronave como um tsunami gástrico...
Indo na direção dos meus pés.
Imitando a subida das marés… o vômito vinha e voltava.
A cada inclinação à esquerda, uma onda vomitativa varria o piso e na inclinação à direita ela retornava aos pés do seu dono.
Esse era só um dos desafios: manter os pés limpos.
O outro passou a ser tentar dominar a ânsia de vômito que estava se apoderando de todos… porque gradualmente outros passageiros começaram a vomitar.
Escutávamos as golfadas sem olhar para trás porque éramos dos primeiros… e sabemos que a vontade de vomitar é uma verdadeira infecção. Altamente contagiosa. Se o som do vômito já provoca ânsia… imagine olhar. Todos aqueles cafés da manhãs diferentes sendo expostos no piso da aeronave.
O próximo desafio seria o cheiro.
O voo não era curto e o odor dos desejuns devolvidos ao mundo se erigiu no ar viciado da cabine fechada como um deus das trevas.
No final do voo, conseguimos não vomitar mas saímos mais para lá do que para cá.
A única passageira que não passou mal foi uma senhora de quase 80 anos, com forte sotaque gaúcho, que achou graça de tudo e falava para nós: respirem devagar e profundamente.
Que viagem! :-)
FELIZ ANIVERSÁRIO, PRIMO.
amamos você!




